Verbete

Voltar

Incêndio de 1911 no prédio da IN

Tragédia ocorrida em 15 de setembro de 1911, uma sexta-feira, a partir das 22h15. O incêndio destruiu o prédio da IN, situado na Rua da Guarda Velha, atual Treze de Maio, Largo da Carioca. O alerta partiu de um bombeiro em serviço no Theatro Lírico, prédio vizinho à IN. Trágica coincidência, a peça encenada naquela noite chamava-se Orpheu no inferno. Quatro minutos adiante, a primeira prontidão do Corpo de Bombeiros chegava ao local e começava a combater as chamas iniciadas no Almoxarifado, cujo expediente encerrara-se às 16h. Nesse curto espaço de tempo, os bombeiros — as “praças”, como eram identificados — de prontidão no Theatro Lírico haviam armado uma mangueira diretamente de um registro para atacar o ponto mais alto das chamas.

Segundo o relatório do Corpo de Bombeiros, a dificuldade em dominar o fogo nos primeiros momentos, antes mesmo de os bombeiros armarem as duas bombas do quartel, se explica pelo ímpeto das chamas, a extensa área atingida, o vento forte daquela hora, a pouca vazão de água e, o mais grave, o grande depósito de material de fácil combustão existente no edifício. Com auxílio das estações da Alfândega, Cattete, São Cristóvão e Humaytá e da terceira bomba da Central, em pouco menos de uma hora o incêndio estava circunscrito ao próprio prédio da IN. Essas medidas reduziram as chances de propagação do fogo, um risco presumível pelas proporções das labaredas e pela situação do edifício.

A rápida intervenção dos bombeiros preservou a fachada e a parte central do prédio, do térreo aos andares superiores.  As laterais também foram preservadas, sobretudo nos pavimentos térreos. Nos fundos, manteve-se intacto, com todo material, um depósito ligado à casa das máquinas, além de todas as dependências em torno do edifício.

Outro relato do incêndio pode ser consultado no livro Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, publicado pela Editora Vozes em 1945. De autoria do frei Basílio Röwer, o livro mantém o horário e confirma a extensão da tragédia. “...pelas 11 horas da noite de 15 de setembro, irrompeu violento incêndio no edifício da Imprensa Nacional, reduzindo as cinzas todo o interior dentro de uma hora, com prejuízos enormes para a União. Providencial foi a preservação do Convento, que pela pequena distância certamente teria sido envolvido, tal a impetuosidade das chamas, se um vento frio e protetor não as houvera desviado para o lado oposto”.

Frei Basílio relata que “espetáculo tão grandioso dificilmente se terá presenciado em tôda a crueza de sua triste realidade”. Adiante, o autor se refere ao clarão produzido pelas chamas em torno do Convento: “A luz que se projetava no Convento e em toda a parte fronteira do morro era tão intensa, que, apesar de chuvosa e escura a noite, distinguia-se o menor objeto ao alcance da vista. Incalculável multidão de curiosos se aglomerava pelos caminhos do morro, emprestando-lhe o aspecto de um anfiteatro”. No dia seguinte ao incêndio, o guardião da igreja, frei Diogo, permitiu que os poucos objetos salvos do incêndio fossem transportados para o antigo refeitório do Convento, de modo a permitir a impressão do Diário Official. Entretanto, dois dias depois (18), o síndico do Convento, Hossannah de Oliveira, “mais sabedor talvez do que são instalações provisórias, não estêve pelos autos e conseguiu fôsse o refeitório de novo evacuado”. Sem indicar se da Imprensa Nacional ou do Convento, o livro informa que “permaneceu, porém, uma seção numa casa que não fôra demolida e que ficava à entrada do portão que dava para o morro”.

O relato do incêndio e as informações de seus desdobramentos estão bem anotados nos jornais da época, tanto nas edições do dia seguinte ao fatídico 15 de setembro quanto nas imediatamente posteriores. Sob a manchete “A distruição da Imprensa Nacional” e do subtítulo “Um aspecto desolador”, o jornal A NOITE inventaria o que restou: “De pé, avariados pelo fogo e pelo esguicho dos bombeiros, só ficaram mesmo as salinhas da frente. Pelos vastos salões do interior nada escapou à ígnea devastação, nem no primeiro, nem no segundo pavimento. Tudo por ali, por dezenas de salas, é ruína e escombro”.

Adiante: “Todas as machinas, todos os aparelhos e móveis que existiam no segundo andar cahiram carbonizados ou retorcidos sobre o pavimento térreo, tornando algumas das dependências deste em uma ruína informe”.  Na legenda da foto principal, lia-se: “As oficinas da Imprensa Nacional transformadas num montão de entulho”. No primeiro plano, à esquerda, vê-se uma machina de cortar papel que caiu do segundo andar”. Entre as preciosidades documentais perdidas, o jornal cita gravuras de cartas de jogar e dois mapas do Brasil em cobre, ambos impressos  no reinado de D. João VI, na então Impressão Régia.

A NOITE chama a atenção para a ausência de seguro do prédio e dos equipamentos, apesar de propostas apresentadas por seguradoras e do desejo exposto pelo diretor-geral de então, Armênio Jouvin (1910-1912), ao ministro da Fazenda, Francisco Salles, a quem o órgão se vinculava. O jornal registra também o salvamento de alguns móveis das salas da frente do térreo, a sala de fundição e um armário com todas as matrizes da linotipo, este mais tarde transportado para o Lyceu de Artes e Offícios, por ordem do diretor-geral, Armênio Jouvim.

Mais completa, a cobertura do CORREIO DA MANHÃ publica a seguinte manchete: “A Imprensa Nacional devorada por um incêndio”, seguida de outras chamadas da primeira página acerca dos prejuízos para o Estado, dos operários sem trabalho, da falta d’água para ação dos bombeiros e da ida dos ministros da Fazenda e da Justiça ao local. A localização do Almoxarifado no primeiro andar, ao lado de máquinas, facilitou a propagação do fogo para o andar de cima. Lá, funcionavam o Diário Official, a secretaria, redação, revisão, composição, brochura, impressão e “uma secção technica”. O jornal informa que na gestão de Armênio Jouvin, o prédio havia passado por importantes reformas, “nas quais gastou o Thesouro grandes e inestimáveis verbas”.

Alertado por um telefonema, Armênio Jouvin logo chegou à IN, onde já se encontravam os delegados Flores da Cunha e Solfieri de Albuquerque. Momentos depois, a eles se juntaram os ministros da Fazenda, Francisco Salles, avisado por Armênio, e da Justiça, Rivadávia Corrêa. Neste trecho da reportagem do CORREIO, fica clara a dimensão da tragédia: “Naquella turba-multa, explodia o pavor de todos os espíritos, ouvindo-se gritos de socorro, numa confusão macabra. Emquanto esse espectaculo doloroso se desenvolvia, o fogo, ganhando a ala esquerda do edifício, pelos fundos, dominava. Encontrando no telhado material de fácil combustão, as chamas derramaram-se ligeiras, levantando labaredas enormes”.

Operários, populares, soldados e até marinheiros colaboraram no combate às chamas, informa o CORREIO. “Os primeiros, porém, a galgarem as janellas do edifício e a atirarem moveis e papeis para a rua, foram 50 marinheiros do cruzador da marinha italiana Etruria [ancorado na zona portuária, próximo à IN]. Marinheiros brasileiros também ajudaram no trabalho: 30 praças do couraçado São Paulo, 30 do cruzador República e 25 do Arsenal da Marinha.

Sob a manchete “O fogo destruiu a Imprensa Nacional”, a GAZETA DE NOTÍCIAS desdobrava o assunto nas submanchetes “Tudo perdido”, “Vinte mil contos de prejuísos”, “A versão corrente é que o incêndio foi obra de um crime”. O corpo da matéria complementava: “...Mas era horrível, era horrível! Talvez vinte mil contos de prejuízo! Cerca de dois mil homens sem trabalho! Um serviço, o grave serviço dos actos officiaes, subitamente interrompido”. No caso dos funcionários, rapidamente o governo anunciaria “o abono de dois meses de salário”.

Adiante, um certo alívio com a recuperação de móveis e valores da Tesouraria: “Logo que irrompeu o fogo, os redatores de plantão no Diário Official, srs. Delio Guaraná e dr. Sylvio Motta, arrobaram a porta da Thesouraria.(...) Momentos após, empregados e autoridades policiais empenharam-se no serviço de salvamento de moveis e valores, o que foi conseguido em grande parte”.

Ainda na capa, a GAZETA expõe a possibilidade de crime em dois momentos. No primeiro, o próprio diretor-geral, Armênio Jouvin, responde a um repórter:

Que pensava da origem do incêndio? Alguma mão criminosa?

Sim, respondeu. É evidente. Houve nisto mão criminosa.

E sabe a quanto montam os prejuízos?

Não sei. De momento não posso calcular.

Mais ou menos...

Nem isso.

À frente, o primeiro tenente Serra Pulcherio, engenheiro militar, afirma que o fogo não poderia ser casual, “porque, se assim fosse, ele não se manifestaria com tanta rapidez em todo o edifício”.

Por determinação do chefe de Polícia, Belizário Távora, o delegado Flores da Cunha ficou encarregado de apurar as causas do acidente, em inquérito aberto nas primeiras horas da madrugada de 15 de setembro, quando vários testemunhas foram arroladas. Na lista de investigados entrou o próprio Corpo de Bombeiros. No dia 19, os jornais informaram que fora detido o Diretor-Geral anterior da IN, Manuel Temístocles de Almeida, que comandou a Casa em 1910. Presos anteriormente e mantidos incomunicáveis, o segundo escriturário da IN, Alencar Araripe Filho; Manoel José da Silva Lima, ex-secretário de Temístocles; Trajano Cesar de Castro, ajudante do Almoxarife; e o sócio principal da firma  Mennick&C, Arthur Mennick, fornecedor da Casa. Na edição do dia  20, A NOITE informa a libração de Temístocles, Alencar e Mennick.

A coluna ÚLTIMA HORA de A NOITE informa no dia 25 que os peritos Olegário Pinto e Saty Nogueira ainda não “ultimaram os seus trabalhos”. Ainda havia dúvidas quanto às causas do acidente, “nada tendo revelado de importante as vistorias que os referidos peritos têm feito nos escombros daquelle proprio nacional”. O mau tempo daqueles dias emperrava o andamento das investigações. Na edição seguinte (26), a mesma coluna afirmava que os trabalhos resultariam inúteis.

Finalmente, na edição de 29 de setembro, o CORREIO DA MANHÃ divulga que os peritos Olegário Pinto e Saty Nogueira entregaram o inquérito ao delegado Flores da Cunha: “ O laudo, que é extenso, não foi ontem dado à publicidade por aquella autoridade, parecendo que os peritos nada apuraram em relação à causa do incêndio”. De certo, apenas o início no Almoxarifado. A história registra que o inquérito fora arquivado por falta de provas para a acusação de uma suposta ação criminosa. O inquérito se perdeu nas sucessivas mudanças de arquivos. Nas comemorações dos 200 anos da Imprensa Nacional, em 2008, a Comissão Interna Comemorativa do Bicentenário da Impressão Régia (Imprensa Nacional) pesquisou seu paradeiro no Rio de Janeiro com auxílio do servidor da Polícia Federal e membro da Comissão, Emanoel Porto Alonso, mas nada encontrou além das cópias dos jornais citados nesta matéria, baixados do site da Biblioteca Nacional, e da cópia da página do livro de frei Basílio Röwer, fornecida pelo Convento de Santo Antônio. Esse material encontra-se arquivado no Museu da Imprensa.