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Gazeta do Rio de Janeiro

Primeiro periódico publicado em 1808 depois da transferência da família real e da corte para o Brasil, constituía um privilégio dos funcionários da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, mas o nº 1 deixou bem claro que não se tratava de uma publicação oficial, respondendo o governo apenas por aqueles textos que mandasse imprimir em seu nome. O resto seria da responsabilidade do redator. E a Gazeta teve três redatores. O primeiro foi o pouco conhecido padre Tibúrcio José da Rocha, que em 1813 foi substituído por uma figura de maior relevo intelectual: Manuel Ferreira de Araújo Magalhães, um baiano que era professor no Rio de Janeiro na Academia Real dos Guardas-Marinhas e depois na Academia Militar.

Tradutor de obras científicas e autor de compêndios para os estudantes daquelas academias, permaneceu na redação da Gazeta até 1821, tendo nos anos de 1813 e 1814 redigido ainda o primeiro jornal científico do Brasil, O Patriota​​​​. Francisco Vieira Goulart foi o último redator da Gazeta. Natural dos Açores, fora professor régio de Filosofia Racional e Moral na Capitania de São Paulo e dirigira mais tarde, a partir de 1812, o Laboratório Químico Prático do Rio de Janeiro. Quando eclodiu o movimento constitucional redigiu o periódico de curta duração O Bem da Ordem, sendo em seguida incumbido da redação da Gazeta.

A guerra na Europa até à derrota de Napoleão ocupou naturalmente muitas páginas da Gazeta do Rio de Janeiro e a habilidade do redator consistia em selecionar, organizar e traduzir as notícias chegadas com os paquetes, uma carreira de navios mais rápidos que a Inglaterra exigira para maior agilidade de seus interesses no Brasil. Além da tradução das notícias inseridas em periódicos estrangeiros, competia ao gazeteiro descrever as festas reais, profanas ou religiosas, realizadas no Rio de Janeiro durante a permanência da corte. Tal descrição ocupa um espaço importante na Gazeta, dado que os festejos por ocasião de um casamento ou batizado na família real se prolongavam durante vários dias e se compunham de uma multiplicidade de elementos.

Como o redator não tinha a possibilidade de assistir a tudo, contava com a colaboração daqueles que tinham presenciado os vários momentos festivos, de maneira a apresentar aos leitores uma descrição completa e minuciosa dos carros alegóricos que tinham desfilado, das danças apresentadas, das roupas exóticas utilizadas. Era preciso variar a adjetivação, explicar as alegorias ao público, exaltar o gosto e a elegância das arquiteturas efêmeras levantadas para o momento festivo. Depois do movimento constitucional de 1821 as comemorações continuaram a celebrar-se no Rio de Janeiro, agora apenas com a introdução de alguns elementos políticos.

Um espaço substancial da Gazeta foi destinado aos “avisos”, como então se chamavam os anúncios, ali colocados por quem pretendia valorizar suas mercadorias ou mesmo recuperar seus escravos fugidos. Eles constituem sem dúvida uma fonte de informação preciosa acerca da vida cotidiana e da vida cultural da cidade cosmopolita em que se transformara o Rio de Janeiro, nova sede da monarquia portuguesa. Através dos anúncios apercebemo-nos das mudanças urbanas, como a expansão da cidade para o Catete, Botafogo, caminho de São Cristóvão, onde os estrangeiros e os reinóis podiam encontrar moradas mais confortáveis do que os apertados sobrados do centro da cidade. Quanto à alimentação, cresceu a oferta de produtos europeus, chegados da Inglaterra enquanto durou a guerra europeia, e depois da paz importados também de França, para atender ao gosto dos muitos estrangeiros que moravam na cidade.

Graças à publicidade nas páginas da Gazeta torna-se possível dimensionar a vida cultural no período joanino, com os anúncios das publicações da Impressão Régia, dos livros à venda nos livreiros, dos periódicos em circulação. Percebemos o peso relativo das obras dirigidas a profissionais e aos amantes das belas letras; damo-nos conta do surto novelístico. Toda esta agitação cultural coexistia com a censura que controlava até mesmo a publicidade dos livros à venda. Ficamos sabendo que a música saíra já do limitado espaço cortesão e religioso para atingir um público que se interessava agora por concertos de música vocal e instrumental, além de frequentar mais assiduamente as representações operáticas no Real Teatro S. João.

As estampas ou gravuras tornaram-se os objetos artísticos de maior venda na cidade, versando sobre os mais variados assuntos, desde o embarque da família real para o Brasil às façanhas dos exércitos português e inglês contra as tropas napoleônicas, e os moradores do Rio passaram a ter acesso ocasionalmente a exposições de coleções de pintura. A parte publicitária da Gazeta dá-nos a conhecer ainda os grupos socioprofissionais, revela-nos a atividade mercantil em seus múltiplos aspectos, descobre-nos os escravos urbanos e a criadagem europeia, os artesãos estrangeiros com lojas ainda pouco comuns no Brasil.

Por tudo isto a Gazeta do Rio de Janeiro não pode ser descartada quando se pretende estudar o período joanino em seus múltiplos aspectos. Já o conteúdo noticioso remete-nos para o estudo da política internacional num momento de grande tensão na Europa e implica o confronto com os periódicos estrangeiros para avaliar como a seleção das notícias foi feita pelos redatores da Gazeta. (Professora Maria Beatriz Nizza da Silva/Universidade de São Paulo)